Total de visualizações de página

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O meu impossível – Florbela Espanca

Minh'alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!


Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito. É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar,
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!...


Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!... Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto...


Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!...

domingo, 30 de outubro de 2011

O bobo da corte - Autoria própria

Tu fazes rir sem dó dos poderosos
Dize-lhes a verdade num espelho
Deformado p´lo real, mas anguloso
Detalhe visto pelo teu evangelho

Cortejas os perigos, audacioso
Sempre que deixas tais nobres vermelhos
Tua ironia é mortal, oh belicoso
Os atacados ficam nus, de joelhos

Conheces as intrigas palacianas
Nelas navegas com habilidade
A espada de um te salva da arma de outro

Após os risos resta-te a profana
Vida oca de quem vive da crueldade
Rei dos risos, da própria alegria indouto

Psicologia de um vencido – Augusto dos Anjos

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme – este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

sábado, 29 de outubro de 2011

O sacerdote - Autoria própria

Dedicou anos preciosos da sua vida
Ao mais profundo estudo do evangelho
De renúncia em renúncia sua jazida
De virtudes formou-se antes de velho

A palavra de Cristo, suas feridas
Na cruz donde jorrou o sangue vermelho
Eis o exemplo, a medida que valida
Toda a carne esfolada nos seus joelhos

Porém o mundo é próximo e o pecado
Insinua-se dia após dia na sua mente
A tentação da carne não se afasta

E na sua fortaleza, o que é errado
Sabe penetrar pelo ambivalente
No orgulho da virtude ele se alastra

A prostituta - Autoria própria

No ápice da beleza, a fulgurância
A magia feminina que domina
Co´a volúpia alheia faz a sua mercancia
Seus dotes naturais, eis a sua mina

Corpo, voz, tato, gesto, sua fragrância
Componentes do todo que alucina
Quando ama, ainda que sinta repugnância
Sacia a ânsia de um ser tal Messalina

O tempo passa e passa a natureza
Ficam as cicatrizes do passado
Os abraços, os beijos, confidências

São escassos no ocaso da beleza
Não há afago no ego ora malfadado
Acariciou. Restou-lhe só a carência

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Juca Pirama - Gonçalves Dias

I


No meio das tabas de amenos verdores,
Cercadas de troncos — cobertos de flores,
Alteiam-se os tetos d'altiva nação;
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Temíveis na guerra, que em densas coortes
Assombram das matas a imensa extensão.


São rudos, severos, sedentos de glória,
Já prélios incitam, já cantam vitória,
Já meigos atendem à voz do cantor:
São todos Timbiras, guerreiros valentes!
Seu nome lá voa na boca das gentes,
Condão de prodígios, de glória e terror!


As tribos vizinhas, sem forças, sem brio,
As armas quebrando, lançando-as ao rio,
O incenso aspiraram dos seus maracás:
Medrosos das guerras que os fortes acendem,
Custosos tributos ignavos lá rendem,
Aos duros guerreiros sujeitos na paz.


No centro da taba se estende um terreiro,
Onde ora se aduna o concílio guerreiro
Da tribo senhora, das tribos servis:
Os velhos sentados praticam d'outrora,
E os moços inquietos, que a festa enamora,
Derramam-se em torno dum índio infeliz.


Quem é? — ninguém sabe: seu nome é ignoto,
Sua tribo não diz: — de um povo remoto
Descende por certo — dum povo gentil;
Assim lá na Grécia ao escravo insulano
Tornavam distinto do vil muçulmano
As linhas corretas do nobre perfil.


Por casos de guerra caiu prisioneiro
Nas mãos dos Timbiras: — no extenso terreiro
Assola-se o teto, que o teve em prisão;
Convidam-se as tribos dos seus arredores,
Cuidosos se incumbem do vaso das cores,
Dos vários aprestos da honrosa função.


Acerva-se a lenha da vasta fogueira,
Entesa-se a corda de embira ligeira,
Adorna-se a maça com penas gentis:
A custo, entre as vagas do povo da aldeia
Caminha o Timbira, que a turba rodeia,
Garboso nas plumas de vário matiz.
Entanto as mulheres com leda trigança,
Afeitas ao rito da bárbara usança,
O índio já querem cativo acabar:
A coma lhe cortam, os membros lhe tingem,
Brilhante enduape no corpo lhe cingem,
Sombreia-lhe a fronte gentil canitar.



II


Em fundos vasos d'alvacenta argila
ferve o cauim;
Enchem-se as copas, o prazer começa,
reina o festim.
O prisioneiro, cuja morte anseiam,
sentado está,
O prisioneiro, que outro sol no ocaso
jamais verá!


A dura corda, que lhe enlaça o colo,
mostra-lhe o fim
Da vida escura, que será mais breve
do que o festim!


Contudo os olhos d'ignóbil pranto
secos estão;
Mudos os lábios não descerram queixas
do coração.
Mas um martírio, que encobrir não pode,
em rugas faz
A mentirosa placidez do rosto
na fronte audaz!


Que tens, guerreiro? Que temor te assalta
no passo horrendo?
Honra das tabas que nascer te viram,
folga morrendo.


Folga morrendo; porque além dos Andes
revive o forte,
Que soube ufano contrastar os medos
da fria morte.


Rasteira grama, exposta ao sol, à chuva,
lá murcha e pende:
Somente ao tronco, que devassa os ares,
o raio ofende!


Que foi? Tupã mandou que ele caísse,
como viveu;
E o caçador que o avistou prostrado
esmoreceu!


Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes
revive o forte,
Que soube ufano contrastar os medos
da fria morte.



III


Em larga roda de novéis guerreiros
Ledo caminha o festival Timbira,
A quem do sacrifício cabe as honras.
Na fronte o canitar sacode em ondas,
O enduape na cinta se embalança,
Na destra mão sopesa a ivirapeme,
Orgulhoso e pujante. — Ao menor passo


Colar d'alvo marfim, insígnia d'honra,
Que lhe orna o colo e o peito, ruge e freme,
Como que por feitiço não sabido
Encantadas ali as almas grandes
Dos vencidos Tapuias, inda chorem
Serem glória e brasão d'imigos feros.


“Eis-me aqui, diz ao índio prisioneiro;
“Pois que fraco, e sem tribo, e sem família,
“As nossas matas devassaste ousado,
“Morrerás morte vil da mão de um forte.”


Vem a terreiro o mísero contrário;
Do colo à cinta a muçurana desce:
“Dize-nos quem és, teus feitos canta,
“Ou se mais te apraz, defende-te.” Começa
O índio, que ao redor derrama os olhos,
Com triste voz que os ânimos comove.



IV


Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo Tupi.


Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.


Já vi cruas brigas,
De tribos imigas,
E as duras fadigas
Da guerra provei;
Nas ondas mendaces
Senti pelas faces
Os silvos fugaces
Dos ventos que amei.


Andei longes terras,
Lidei cruas guerras,
Vaguei pelas serras
Dos vis Aimorés;
Vi lutas de bravos,
Vi fortes — escravos!
De estranhos ignavos
Calcados aos pés.


E os campos talados,
E os arcos quebrados,
E os piagas coitados
Já sem maracás;
E os meigos cantores,
Servindo a senhores,
Que vinham traidores,
Com mostras de paz


Aos golpes do imigo
Meu último amigo,
Sem lar, sem abrigo
Caiu junto a mi!
Com plácido rosto,
Sereno e composto,
O acerbo desgosto
Comigo sofri.


Meu pai a meu lado
Já cego e quebrado,
De penas ralado,
Firmava-se em mi:
Nós ambos, mesquinhos,
Por ínvios caminhos,
Cobertos d'espinhos
Chegamos aqui!


O velho no entanto
Sofrendo já tanto
De fome e quebranto,
Só qu'ria morrer!
Não mais me contenho,
Nas matas me embrenho,
Das frechas que tenho
Me quero valer.


Então, forasteiro,
Caí prisioneiro
De um troço guerreiro
Com que me encontrei:
O cru dessossego
Do pai fraco e cego,
Enquanto não chego,
Qual seja — dizei!


Eu era o seu guia
Na noite sombria,
A só alegria
Que Deus lhe deixou:
Em mim se apoiava,
Em mim se firmava,
Em mim descansava,
Que filho lhe sou.


Ao velho coitado
De penas ralado,
Já cego e quebrado,
Que resta? - Morrer.
Enquanto descreve
O giro tão breve
Da vida que teve,
Deixa-me viver!


Não vil, não ignavo,
Mas forte, mas bravo,
Serei vosso escravo:
Aqui virei ter.
Guerreiros, não coro
Do pranto que choro;
Se a vida deploro,
Também sei morrer.



V


Soltai-o! — diz o chefe. Pasma a turba;
Os guerreiros murmuram: mal ouviram,
Nem pode nunca um chefe dar tal ordem!
Brada segunda vez com voz mais alta,
Afrouxam-se as prisões, a embira cede,
A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo,
— Timbira, diz o índio enternecido,
Solto apenas dos nós que o seguravam:
És um guerreiro ilustre, um grande chefe,
Tu que assim do meu mal te comoveste,
Nem sofres que, transposta a natureza,
Com olhos onde a luz já não cintila,
Chore a morte do filho o pai cansado,
Que somente por seu na voz conhece.
— És livre; parte.
— E voltarei.
— Debalde.


— Sim, voltarei, morto meu pai.


— Não voltes!


É bem feliz, se existe, em que não veja,
Que filho tem, qual chora: és livre; parte!
— Acaso tu supões que me acobardo,
Que receio morrer!
— És livre; parte!


— Ora não partirei; quero provar-te
Que um filho dos Tupis vive com honra,
E com honra maior, se acaso vencem,
Da morte o passo glorioso afronta.


— Mentiste, que um Tupi não chora nunca,
E tu choraste!... parte; não queremos
Com carne vil enfraquecer os fortes.
Sobresteve o Tupi: - arfando em ondas
O rebater do coração se ouvia
Precipite. - Do rosto afogueado
Gélidas bagas de suor corriam:
Talvez que o assaltava um pensamento...
Já não... que na enlutada fantasia,
Um pesar, um martírio ao mesmo tempo,
Do velho pai a moribunda imagem
Quase bradar-lhe ouvia: - Ingrato! ingrato!
Curvado o colo, taciturno e frio,
Espectro d'homem, penetrou no bosque!



VI


— Filho meu, onde estás?


— Ao vosso lado;
Aqui vos trago provisões: tomai-as,
As vossas forças restaurar perdidas,
E a caminho, e já!


— Tardaste muito!


Não era nado o sol, quando partiste,
E frouxo o seu calor já sinto agora!


— Sim, demorei-me a divagar sem rumo,
Perdi-me nestas matas intrincadas,
Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo;
Convém partir, e já!


— Que novos males


Nos resta de sofrer? — que novas dores,
No outro fado pior Tupã nos guarda?
— As setas da aflição já se esgotaram,
Nem para novo golpe espaço intacto
Em nossos corpos resta.


— Mas tu tremes


— Talvez do afã da caça...


— Oh filho caro


Um quê misterioso aqui me fala,
Aqui no coração; piedosa fraude
Será por certo, que não mentes nunca!
Não conheces temor, e agora temes?
Vejo e sei: é Tupã que nos aflige,
E contra o seu querer não valem brios.
Partamos!... — E com mão trêmula, incerta
Procura o filho, tateando as trevas
Da sua noite lúgubre e medonha.
Sentindo o acre odor das frescas tintas,
Uma idéia fatal correu-lhe à mente...
Do filho os membros gélidos apalpa,
E a dolorosa maciez das plumas
Conhece estremecendo: — foge, volta,
encontra sob as mãos o duro crânio,
Despido então do natural ornato!...
Recua aflito e pávido, cobrindo
Às mãos ambas os olhos fulminados,
Como que teme ainda o triste velho
De ver, não mais cruel, porém mais clara,
Daquele exício grande a imagem viva
Ante os olhos do corpo afigurada.
Não era que a verdade conhecesse
Inteira e tão cruel qual tinha sido;
Mas que funesto azar correra o filho,
Ele o via; ele o tinha ali presente;
E era de repetir-se a cada instante.
A dor passada, a previsão futura
E o presente tão negro, ali os tinha;
Ali no coração se concentrava,
Era num ponto só, mas era a morte!


— Tu prisioneiro, tu?


— Vós o dissesses.


— Dos índios?


— Sim.


— De que nação?


— Timbiras


— E a muçurana funeral rompeste,
Dos falsos manitôs quebraste a maça...
— Nada fiz... aqui estou.


— Nada! —


Emudecem;


Curto instante depois prossegue o velho:
— Tu és valente, bem o sei; confesso,
Fizeste-o, certo, ou já não foras vivo!
— Nada fiz; mas souberam da existência
De um pobre velho, que em mim só vivia...
— E depois?...


—Eis-me aqui.


—Fica essa taba?


— Na direção do sol, quando transmonta.


— Longe?


— Não muito.


— Tens razão: partamos.


— E quereis ir?...


— Na direção do ocaso.



VII


“Por amor de um triste velho,
Que ao termo fatal já chega,
Vós, guerreiros, concedesses
A vida a um prisioneiro.
Ação tão nobre vos honra,
Nem tão alta cortesia
Vi eu jamais praticada
Entre os Tupis — e mas foram
Senhores em gentileza.


“Eu porém nunca vencido,
Nem os combates por armas
Nem por nobreza nos atos;
Aqui venho, e o filho trago.
Vós o dizeis prisioneiro,
Seja assim como dizeis;
Manda! vir a lenha, o fogo,
A maça do sacrifício
E a muçurana ligeira:
Em tudo o rito se cumpra!
E quando eu for só na terra,
Certo acharei entre os vossos,
Que tão gentis se revelam,
Alguém que meus passos guie;
Alguém, que vendo o meu peito
Coberto de cicatrizes,
Tomando a vez de meu filho,
De haver-me por pai se ufane!”


Mas o chefe dos Timbiras,
Os sobrolhos encrespando,
Ao velho Tupi guerreiro
Responde com torvo acento:
— Nada farei do que dizes:
É teu filho imbele e fraco!
Aviltaria o triunfo
Da mais guerreira das tribos
Derramar seu ignóbil sangue:
Ele chorou de cobarde;
Nós outros, fortes Timbiras,
Só de heróis fazemos pasto. —
Do velho Tupi guerreiro
A surda voz na garganta
Faz ouvir uns sons confusos,
Como os rugidos de um tigre,
Que pouco a pouco se assanha!



VIII


“Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de vis Aimorés.


“Possas tu, isolado na terra,
Sem arrimo e sem pátria vagando,
Rejeitado da morte na guerra,
Rejeitado dos homens na paz,
Ser das gentes o espectro execrado;
Não encontres amor nas mulheres,
Teus amigos, se amigos tiveres,
Tenham alma inconstante e falaz!


“Não encontres doçura no dia,
Nem as cores da aurora te ameiguem,
E entre as larvas da noite sombria
Nunca possas descanso gozar:
Não encontres um tronco, uma pedra,
Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos,
Padecendo os maiores tormentos,
Onde possas a fronte pousar.


“Que a teus passos a relva se torre;
Murchem prados, a flor desfaleça,
E o regato que límpido corre,
Mais te acenda o vesano furor;
Suas águas depressa se tornem,
Ao contacto dos lábios sedentos,
Lago impuro de vermes nojentos,
Donde festas como asco e terror!


“Sempre o céu, como um teto incendido,
Creste e punja teus membros malditos
E o oceano de pó denegrido
Seja a terra ao ignavo tupi!
Miserável, faminto, sedento,
Manitôs lhe não falem nos sonhos,
E do horror os espectros medonhos
Traga sempre o cobarde após si.


“Um amigo não tenhas piedoso
Que o teu corpo na terra embalsame,
Pondo em vaso d'argila cuidoso
Arco e frecha e tacape a teus pés!
Sé maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és."



IX


Isto dizendo, o meserando velho
A quem Tupã tamanha dor, tal fado
Já nos confins da vida reservara,
Vai com trêmulo pé, com as mãos já frias
Da sua noite escura as densas trevas
Palpando. - Alarma! alarma! - O velho para.
O grito que escutou é voz do filho,
Voz de guerra que ouviu já tantas vezes
Noutra quadra melhor. - Alarma! alarma!
— Esse momento só vale apagar-lhe
Os tão compridos transes, as angústias,
Que o frio coração lhe atormentaram
De guerreiro e de pai: - vale, e de sobra.
Ele que em tanta dor se contivera,
Tomado pelo súbito contraste,
Desfaz-se agora em pranto copioso,
Que o exaurido coração remoça.


A taba se alborota, os golpes descem,
Gritos, imprecações profundas soam,
Emaranhada a multidão braveja,
Revolve-se, enovela-se confusa,
E mais revolta em mor furor se acende.
E os sons dos golpes que incessantes fervem.
Vozes, gemidos, estertor de morte
Vão longe pelas ermas serranias
Da humana tempestade propagando
Quantas vagas de povo enfurecido
Contra um rochedo vivo se quebravam.


Era ele, o Tupi; nem fora justo
Que a fama dos Tupis - o nome, a glória,
Aturado labor de tantos anos,
Derradeiro brasão da raça extinta,
De um jacto e por um só se aniquilasse.


— Basta! clama o chefe dos Timbiras,
— Basta, guerreiro ilustre! assaz lutaste,
E para o sacrifício é mister forças. -
O guerreiro parou, caiu nos braços
Do velho pai, que o cinge contra o peito,
Com lágrimas de júbilo bradando:
“Este, sim, que é meu filho muito amado!


“E pois que o acho enfim, qual sempre o tive,
“Corram livres as lágrimas que choro,
“Estas lágrimas, sim, que não desonram.”



X


Um velho Timbira, coberto de glória,
guardou a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!


E à noite, nas tabas, se alguém duvidava
do que ele contava,
Dizia prudente: - “Meninos, eu vi!
“Eu vi o brioso no largo terreiro
cantar prisioneiro
Seu canto de morte, que nunca esqueci:
Valente, como era, chorou sem ter pejo;
parece que o vejo,
Que o tenho nest'hora diante de mim.


“Eu disse comigo: Que infâmia d’escravo!
Pois não, era um bravo;
Valente e brioso, como ele, não vi!
E à fé que vos digo: parece-me encanto
Que quem chorou tanto,
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!"


Assim o Timbira, coberto de glória,
guardava a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi.
E à noite nas tabas, se alguém duvidava
do que ele contava,
Tomava prudente: "Meninos, eu vi!”

Tributo a Carlos Drummond de Andrade - Autoria própria

Caminho, pedra, poeta
Senão que o poema espeta

O poeta no caminho
Misterioso e sozinho

Ninguém entende a pedra
Que não se desempedra

Porque somente o poeta
Sabe o que a pedra afeta

Carlos Drummond viu a pedra
No poema que ainda medra

Batalha aberta pelo lirismo - Autoria própria

Todo poeta se acha um arquiteto
Pensa que no poema tudo pode
Porém o artesão Metro lhe acode
E logo põe o poema no seu teto

Pois só assim cabe toda alegria
E Carlitos com clara pureza
No cultivo dessa teogonia
É que se colhe rara beleza

-------------------------------------------------


A alegre palavra quis entrar no verso.
Ouviu:
- És oxítona?
-Com quem rimas?
Fugiu.
Desceu para brincar com uma criança.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Como eu não possuo – Mário de Sá-Carneiro

Olho em volta de mim. Todos possuem
Um afecto, um sorriso ou um abraço,
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço

Roça por mi, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente
São êxtases da cor que eu fremiria
Mas a minh´alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei...perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu;
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse – ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...

Castrado d´alma e sem saber fixar-me
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
- Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Escavação - Mário de Sá-Carneiro

Numa ânsia de ter alguma cousa,

Divago por mim mesmo a procurar,

Desço-me todo, em vão, sem nada achar,

E a minh´alma perdida não repousa.



Nada tendo, decido-me a criar:

Brando a espada: sou luz harmoniosa

E chama genial que tudo ousa

Unicamente à força de sonhar...



Mas a vitória fulva esvai-se logo

E cinzas, cinzas só, em vez de fogo...

- Onde existo que não existo em mim?



.....................................................

.....................................................



Um cemitério falso sem ossadas,

Noites d´amor sem bocas esmagadas –

Tudo outro espasmo que princípio ou fim...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Desnuda - Autoria própria

Não se dispa ainda

Quero me despedir

De sua roupa



Não me ofereça

Deixe-me conquistar

Sua intimidade



Resista

Peça a peça

Recuse meus beijos

Se necessário



Não ceda à tirania

Das minhas mãos



Esconda os elogios

Acordados

Pela lascívia



Lute

Mas não se esqueça

Só venceremos

Se perdermos

domingo, 23 de outubro de 2011

Despedida inesperada - autoria própria

No quebra-cabeças falta uma peça
Não há tapete para se empurrar a poeira
O castelo de areia ainda não está pronto
O baralho ainda está misturado na mesa
Esgotaram-se as economias da ampulheta
Calou-se a tinta da caneta
Só cabe mais uma palavra no elevador:
Tchau!

Fogo-fátuo – Olavo Bilac

Cabelos brancos! dai-me, enfim, a calma
A esta tortura de homem e de artista:
Desdém pelo que encerra a minha palma,
E ambição pelo mais que não exista;

Esta febre, que o espírito me encalma
E logo me enregela; esta conquista
De idéias, ao nascer, morrendo na alma,
De mundos, ao raiar, murchando à vista:

Esta melancolia sem remédio,
Saudade sem razão, louca esperança
Ardendo em choros e findando em tédio;

Esta ansiedade absurda, esta corrida
Para fugir o que o meu sonho alcança,
Para querer o que não há na vida!

sábado, 22 de outubro de 2011

Língua portuguesa - Olavo Bilac

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Sonetos bíblicos - Autoria própria

I
Do oriente uma estrela anunciou a vinda
Do menino Jesus em casa discreta
Três magos e a homenagem merecida
E a fúria do rei Herodes foi desperta

Ouro, incenso e mais mirra, mas sua vida
Estava em risco, e a ameaça era concreta
Sua família armou rápida partida
A fuga para o Egito após o alerta

E Herodes promoveu hedionda matança
Viu-se jorrar o sangue de inocentes
Pequenos anjos co´ a idade de Deus

Co´a morte do perverso e sua vingança
Há a volta para a terra dos parentes
A família retorna ao povo hebreu

II
Tempos após, Jesus foi até o deserto
Foi tentado p´lo diabo, este maldito
Jejum e fome, pedra em pão, o objeto
A tentação primeira não foi mito

Segunda tentação, segundo veto
Atirar-se do alto ao chão pois está escrito
Que Deus o salvaria deste projeto
Mas Jesus disse não ao senhor desdito

Então o diabo ofertou os reinos da terra
Ao nosso senhor, com todas riquezas
Bastando para tanto o seu louvor

Jesus disse não para o que só erra
Foi fiel a Deus pai, vera fortaleza
O Deus que nos devota todo amor

Como encontrar palavras para a beleza – Autoria própria

Como encontrar palavras p´ra a beleza
Que está além das hipérboles de um poema
Sequer sílaba de ouro teria a alteza
Da graça e formosura desse tema

Pois encontro-me então nesse dilema
De ver sem descrever tal esbelteza
Por mais que busque o mais belo fonema
É mais bela ainda a própria natureza

Dedico-lhe então versos esforçados
Co´o carinho de quem muito lhe admira
Em silêncio eloquente mas discreto

Que esse meu grito mudo e ora alforriado
Seja lido por seus olhos diletos
Último anseio do poema que suspira

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Enivrez-vous - Charles Baudelaire

Il faut être toujours ivre. Tout est là: c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve. Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.

Et si quelquefois, sur les marches d'un palais, sur l'herbe verte d'un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l'ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l'étoile, à l'oiseau, à l'horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est et le vent, la vague, l'étoile, l'oiseau, l'horloge, vous répondront:

"Il est l'heure de s'enivrer! Pour n'être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous; enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise."

Embriaguem-se - Tradução livre

É necessário estar constantemente embriagado. Está é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do tempo que faz pender para a terra, é necessário embriagar-se sem cessar. Mas de quê? De vinho, poesia ou virtude, à escolha. Mas embriaguem-se.

E se alguma vez sobre os degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, dentro da solidão morna de seu quarto, vocês despertarem com a embriaguez já diminuída ou extinta, perguntem ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntem que horas são e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio, lhes responderão:

“É a hora de embriagar-se! Para não ser um escravo martirizado pelo tempo, embriague-se; embriague-se sem cessar! De vinho, poesia ou de virtude, à escolha."

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Sábado de carnaval - Autoria própria

Taranranranranranram
Tararanranranranran
Taranranranranranram
Tararanranranranram
Taranranranranranranranram
Taranananranranaram
TAN...

Frevo, folia
Sol, sombrinha
Olinda, que linda!
Onomatopeia perdida
Bêbada, vadia
Vagueia pelas ladeiras
Entre bonecos de madeira
Com o frevo retumbando

E sobe, e desce e vem
E aperta, e solta, e estica
E beija, e foge e corre
E bebe, bebe, bebe
Sem nada entender

O sol que castiga a tez
Que queima e bronzeia
A gata molhada
Com água e cerveja
Que escapa lisa
Dos beijos que se perdem
No ar

E o vendedor que vende e assiste
Ganha o pão com a cerveja
E embora ele esteja
Ainda trabalhando

Por dentro ele pula
Cobiça a menina
Que compra uma bebida
Fermentada
8:30 da manhã

Na sua blusinha
Branca
Que mais mostra que esconde
Ufana o desejo
Profana o juízo
E concita o herege
Folião
A perder a linha
Nem que vejam
Nem que seja
Nem que esteja
No meio
Da multidão

Neste segmento da hora
Sem demora
O álcool já fermenta
A imaginação

Cogito, ergo sum
Penso, logo existo
Bebo, logo existo
Bebo, logo insisto
Bebo e não desisto
Penso e insisto
Peço, não desisto
De beijar a foliã

E a moça toda prosa
Sente-se a rainha
Disputada
Rapunzel no chão
Com cabelos desgrenhados
E seus olhos bêbados
Perdeu a contabilidade
Dos beijos dados

O casal recém-agarrado
Renhidos numa disputa
Enredados num abraço
Na luta por um beijo
Ele quer, ela refuga
Ele tenta, ela finta
Ele esquenta, ela apaga
Ele aproxima, ela esgrima
Com o meneio de seu rosto

E nesse breve devaneio
Num momento desprevenido
Ela vacila e o atila
Ele beija e ela deixa

No entanto,
Enquanto
Ele comemora
O desenlace
Ela oferece sua face
Para o desembarque de um beijo alheio
E segue navegando
Na nau doutro pirata

Tararararararnaram

O bêbado Platão
Filósofo de botequim
Arrota erudição
Roubada de livros
Que não leu

Confunde Derrida com Sartre
Conclama Che e Lampião
Culpa o capitalismo
Cita Nietzsche
E espirra

Cogito, ergo sum
Bebo, logo sou bebum

Mas estamos em Olinda
Vendo o Recife
Perto do berço
De Manuel Bandeira
E do ataque do Carrossel
Holandês

Pois lá vêm os gringos
Brancos, vermelhos
Não entendem por que pulam
E de onde pululam
Tantos foliões

E o menino que trabalha
No sol, no som, na rua
No barulho, no aperto
Com orgulho
Da multidão

Que venera sua Olinda
Que visita suas Igrejas
Que veleja no Recife
Que valoriza a cerveja
Que ele vende

Taranranranranranram
Tararanranranranram

E lá vêm os bonecos
Bonecos gigantes
Imponentes
Majestosos
Resistem ao sol
Rasgando caminho no reino de Momo

Eles balançam e seguem
Marchando com feição invariante
Varando a colmeia de gentios
Com o frevo no front

Ali no meio
Um homem
Que não delira
É dilacerado pela folia
Retira-se da mentira que vê
Vai para a TV
Ver outra mentira

Afogado em falsidades
Insulado no que sente
Naufragou na multidão
Liberta sua frustração
Num palavrão
E constatações inúteis
Ilusões fúteis
Lamentos moucos
Doestos ocos
Discurso louco

Todos sabem o que se passa
Todos sabem o que se passa
Todos ignoram o que se passa
Todos ignoram o que se passa
Ignaros voluntários
Ignotos vários
Hipnose consentida

E a festa continua

Taranraranraran...

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Epigrama - Gregório de Mattos e Guerra - Séc. XVII

I

Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio.
Quem causa tal perdição?... Ambição.
E no meio desta loucura?... Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.

Quais são seus doces objetos?... Pretos.
Tem outros bens mais maciços?... Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos.

Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao Demo o povo asnal,
Que estima por cabedal,
Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?... Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas?... Guardas.
Quem as tem nos aposentos?... Sargentos.

Os círios lá vem aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda?... Bastarda.
É grátis distribuída?... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

Que vai pela clerezia?... Simonia.
E pelos membros da Igreja?... Inveja.
Cuidei que mais se lhe punha?... Unha

Sazonada caramunha,
Enfim, que na Santa Sé
O que mais se pratica é
Simonia, inveja e unha.

E nos frades há manqueiras?... Freiras.
Em que ocupam os serões?... Sermões.
Não se ocupam em disputas?... Putas.

Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.

O açúcar já acabou?... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?... Subiu.
Logo já convalesceu?... Morreu.

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal cresce,
Baixou, subiu, morreu.

A Câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o Governo a convence?... Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Bailarina - Autoria própria

A graciosidade de teus movimentos
Subjuga a gravidade
Ternura que esparge
De teu rosto delgado

Cintila
Em teus passos
Um espaço
Improvável
Imprevisível
Que congela o instante
Infinito e constante
De um movimento
De tuas pernas

Carregas a dor num sorriso
E concedes à platéia
A generosidade de teus joelhos
Mártires delicados

Poetisa dos palcos
A força em teus pés
Lapida versos na ribalta